5 de out. de 2009

2016 é logo alí.






Tudo bem, vai. É legal o fato de que, pela primeira vez, um país da América do Sul foi escolhido como sede. Legal, e importante. Isso gera visibilidade para os atletas locais, afluxo de turistas, empregos – mesmo que temporários...e promove uma série de melhorias na cidade-sede que, se forem geridas com responsabilidade, podem significar um aumento significativo na qualidade de vida dos cidadãos.

Mas, vamos aos fatos: trânsito caótico, estado de sítio não-declarado por parte do crime organizado, obras públicas sucateadas, polícia...bom...aquilo lá, vocês sabem..., pontos turísticos (que saem do eixo de visão da novela das oito) degradados por mau-uso ou descaso...sem falar na falta de educação crônica e em uma esperteza, em um jeitinho brasileiro que só existe enquanto mito. Aquela imagem de povo cordial e simpático, que recebe a todos com um sorriso e um abraço, me desculpem, corresponde tanto à verdade quanto achar que todo gaúcho é grosso, todo mineiro é ingênuo, ou todo paulista é maníaco por trabalho.

Vendeu-se um estereótipo que choca-se com a realidade.

Ao ler a matéria de capa da Veja desta semana, que menciona todas as obras/melhorias etc, etc, que precisam ser feitas, uma pergunta ficou martelando em minha cabeça: Se os otimistas acham que em 7 anos dá para fazer/consertar tudo isso, por quê não foi feito antes? Coisas do jeitinho brasileiro? Vamo pegá uma onda, que o mar ta mó irado? Depois a gente faz? Depois a gente vê essa parada aí? Hedonismo na crista da onda.

Antes que me acusem de anticarioca, que digam que isso aqui é papo de paulistano ressentido, esclareço: tenho cariocas na minha família, em mais de uma geração. Pessoas que falam das mazelas da cidade sem meias-palavras, que não fecham os olhos para elas. E que não querem botar mais os pés lá.

Segundo: São Paulo também não tem condições de ser sede das Olimpíadas, ponto.

Terceiro: enquanto cara que trabalha com criação, acho muito legal essa imagem mitológica do Rio, que não existe mais e talvez nem tenha existido de fato, com a malandragem enquanto uma virtude popular. Adoro fotografias do Rio antigo, com a paisagem exuberante, e a elegância do povo, de então.

Antes que me acusem de antipatriota, esclareço. Não estou desejando que as coisas dêem errado, não. Quero mais é que limpem e consertem o que for necessário; espero que sejam feitas melhorias suficientes para desafogar o trânsito e modernizar o metrô. Gostaria de ler notícias sobre a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas, e que o crime fique em níveis compatíveis com o porte da cidade, para que o cidadão não tenha mais a dúvida se vai conseguir voltar vivo para casa se for comprar pão na esquina (Não vou ser ingênuo de declarar que quero que erradiquem o crime...querer, a gente quer, mas isso não vai acontecer, sinto muito. Mesmo.) Desejo mesmo que as próximas gerações tenham a oportunidade de viver em uma cidade-modelo, que seja mesmo um cartão-postal do país, com lugares para a prática de esportes e atividades culturais.

Mas a pergunta continua...Por quê isso tudo não foi feito antes? O cidadão que paga imposto, que pega ônibus lotado, que rala todo dia não merece? A gente só limpa a casa quando tem visita, é isso, mermão?

Espero também que hajam campanhas de conscientização, de cidadania, de educação, mesmo. Mas sem esperar que isso venha dos “sinhô-dotô” do Palácio Guanabara, dos Bandeirantes, ou do Planalto. Eles não estão nem aí, ponto.

É dever seu, meu, de todo mundo fazer sua cidade melhor. Pedir licença, pedir desculpas, jogar o lixo no lixo, atravessar na faixa, respeitar quem quer que seja; branco, negro, oriental, cadeirante, gay, idoso, criança. Pequenos grandes gestos, todo dia um pouco.

Isso tudo enriquece as pessoas.

Quero mais é que nossos atletas superem seus limites; não para “dar um show para o mundo”, que isso é ufanismo babaca. Que se superem para que possam angariar patrocínios e possam continuar a fazer o que gostam, sem mendicância. Pelo prazer de ser atleta.

Essa papagaiada de “Nunca, na história desse país...se achou tanto petróleo, fez-se uma Copa do Mundo (sic), fez-se uma Olimpíada, (preencha este espaço em branco com a babaquice que você quiser)”, é papo de quem se acha o Pai dos Pobres, que o povo é coitadinho, “por isso eu faço tanto por vocês”; é verborragia vazia de quem troca chinelos e cestas básicas por votos para se perpetuar no poder. Fala sério, é coisa de mané.

Vou torcer, como sempre torci, em todas as Olimpíadas. Nem mais nem menos.

Mas...Por quê não fizeram isso tudo antes, caceta?

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