
Tudo bem, vai. É legal o fato de que, pela primeira vez, um país da América do Sul foi escolhido como sede. Legal, e importante. Isso gera visibilidade para os atletas locais, afluxo de turistas, empregos – mesmo que temporários...e promove uma série de melhorias na cidade-sede que, se forem geridas com responsabilidade, podem significar um aumento significativo na qualidade de vida dos cidadãos.
Vendeu-se um estereótipo que choca-se com a realidade.
Ao ler a matéria de capa da Veja desta semana, que menciona todas as obras/melhorias etc, etc, que precisam ser feitas, uma pergunta ficou martelando em minha cabeça: Se os otimistas acham que em 7 anos dá para fazer/consertar tudo isso, por quê não foi feito antes? Coisas do jeitinho brasileiro? Vamo pegá uma onda, que o mar ta mó irado? Depois a gente faz? Depois a gente vê essa parada aí? Hedonismo na crista da onda.
Antes que me acusem de anticarioca, que digam que isso aqui é papo de paulistano ressentido, esclareço: tenho cariocas na minha família, em mais de uma geração. Pessoas que falam das mazelas da cidade sem meias-palavras, que não fecham os olhos para elas. E que não querem botar mais os pés lá.
Segundo: São Paulo também não tem condições de ser sede das Olimpíadas, ponto.
Terceiro: enquanto cara que trabalha com criação, acho muito legal essa imagem mitológica do Rio, que não existe mais e talvez nem tenha existido de fato, com a malandragem enquanto uma virtude popular. Adoro fotografias do Rio antigo, com a paisagem exuberante, e a elegância do povo, de então.
Antes que me acusem de antipatriota, esclareço. Não estou desejando que as coisas dêem errado, não. Quero mais é que limpem e consertem o que for necessário; espero que sejam feitas melhorias suficientes para desafogar o trânsito e modernizar o metrô. Gostaria de ler notícias sobre a despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas, e que o crime fique em níveis compatíveis com o porte da cidade, para que o cidadão não tenha mais a dúvida se vai conseguir voltar vivo para casa se for comprar pão na esquina (Não vou ser ingênuo de declarar que quero que erradiquem o crime...querer, a gente quer, mas isso não vai acontecer, sinto muito. Mesmo.) Desejo mesmo que as próximas gerações tenham a oportunidade de viver em uma cidade-modelo, que seja mesmo um cartão-postal do país, com lugares para a prática de esportes e atividades culturais.
Mas a pergunta continua...Por quê isso tudo não foi feito antes? O cidadão que paga imposto, que pega ônibus lotado, que rala todo dia não merece? A gente só limpa a casa quando tem visita, é isso, mermão?
Espero também que hajam campanhas de conscientização, de cidadania, de educação, mesmo. Mas sem esperar que isso venha dos “sinhô-dotô” do Palácio Guanabara, dos Bandeirantes, ou do Planalto. Eles não estão nem aí, ponto.
É dever seu, meu, de todo mundo fazer sua cidade melhor. Pedir licença, pedir desculpas, jogar o lixo no lixo, atravessar na faixa, respeitar quem quer que seja; branco, negro, oriental, cadeirante, gay, idoso, criança. Pequenos grandes gestos, todo dia um pouco.
Isso tudo enriquece as pessoas.
Vou torcer, como sempre torci, em todas as Olimpíadas. Nem mais nem menos.
Mas...Por quê não fizeram isso tudo antes, caceta?
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